Entrevista com George Guimarães

Entrevista concedida no final de janeiro de 2011 enquanto estava a bordo do Steve Irwin:

1- Quando surgiu a ideia de integrar a tripulação de um navio da Sea Shepherd? Você é membro do grupo desde quando? E quanto tempo deve ficar no navio?

O meu primeiro contato com a Sea Shepherd foi em 2005 quando conheci o Capitão Paul Watson em uma conferência de direitos animais nos EUA, onde palestramos juntos. Desde então, pude conhecer mais sobre o grupo e a eficiência do seu modo de ação e em 2009 me inscrevi como voluntário para participar da campanha contra a caça de baleias na Antártida, o que se concretizou em dezembro de 2010. Nesse ano, a frota da Sea Shepherd é composta por três embarcações e patrulhará a região até o mês de março. Algumas das embarcações precisam retornar ao porto (que pode estar a uma distância de alguns dias até mais de uma semana) para reabastecimento. Eu ficarei no navio até o momento do reabastecimento, que depende do desempenho do navio durante a campanha e por isso não pode ser previsto com muita antecedência. Poderei ficar a bordo entre 6 e 12 semanas.

2- Para que lugares você deve ir com o navio? Qual é o seu objetivo principal?

Estou a bordo do Steve Irwin, o principal navio da frota, que se divide com o Bob Barker e o Gojira (embarcação veloz com design futurista que bateu o recorde de volta ao mundo) na tarefa de patrulhar uma área imensa do Oceano Antártico que se estende por milhares de quilômetros de latitude e longitude, desde o sul da Nova Zelândia e em direção ao Chile até o Mar de Ross, que faz contato com o continente gelado no extremo sul do planeta.

O desafio da frota da Sea Shepherd é encontrar a frota baleeira japonesa para impedir a caça. Nesse ano, pela primeira vez, esse objetivo foi alcançado em 31 de dezembro, quando três navios arpoeiros (Yushinmaru 1, 2 e 3) foram interceptados antes que eles tivessem iniciado a caça e os temos mantido ocupados desde então, o que significa que não estão caçando. O alvo maior é encontrar o navio-fábrica (Nishinmaru), onde as baleias mortas pelos navios arpoeiros são processadas. Quando o navio-fábrica é encontrado, a sua rampa de carregamento é obstruída pela nossa presença e os navios arpoeiros param de caçar pois não podem fazer a transferência da baleia morta por eles. De qualquer modo, enquanto continuamos sendo seguidos por dois dos seus navios arpoeiros, que se mantêm em nossa traseira para informar ao navio-fábrica a nossa posição para que esse possa se dirigir na direção oposta, nenhum desses está caçando.

Para completar a intervenção bem-sucedida, o navio-tanque, responsável por fornecer combustível à frota japonesa, foi interceptado no dia 11 de janeiro e prontamente escoltado para fora do Santuário de Baleias, onde jamais deveriam ter entrado já que é proibida a transferência de combustíveis abaixo dos 60 graus sul de latitude. Ele está sendo mantido à vista, o que impede qualquer tentativa de reabastecimento e por sua vez condena toda a frota baleeira a ter que retornar para casa dentro muito em breve.

Em resumo, enquanto a Sea Shepherd está presente, seja perseguindo-os ou sendo perseguida por eles, eles não têm a possibilidade de caçar.

3- A Sea Shepherd costuma ir de encontro a navios baleeiros e atacá-los. Prefere que os japoneses briguem com eles e, enquanto isso, não matem baleias. Mas não é uma atividade perigosa? No ano passado, um navio do Sea Shepherd se chocou contra um baleeiro - não houve feridos, mas o casco do barco rasgou. Não teme o que pode ocorrer?

Na verdade, a Sea Shepherd não os ataca, mas intervém para fazer valer um tratado internacional que proíbe a caça de baleias. Uma vez que a frota japonesa reage de forma violenta, a frota da Sea Shepherd responde usando bombas de fumaça e lançando garrafas contendo ácido butírico, que nada mais é do que uma substância de odor nauseante que impede que a tripulação dos navios baleeiros trabalhe nos conveses dos navios. Ambas são inofensivas à vida da tripulação.

De fato, em um oceano de clima extremo, considerado como a área de navegação mais perigosa do planeta onde a temperatura da água é abaixo de zero grau Celsius e o porto mais próximo pode estar a muitos dias de navegação, há um grande risco inerente à atividade desempenhada por toda a tripulação. Estamos cientes desse risco e o assumimos de maneira voluntária sem esperar receber qualquer coisa em troca a não ser o resultado pelos animais e pelo planeta. Esse risco tem a sua importância reduzida quando é colocado sob a perspectiva do poder que nossas ações individuais podem ter sobre as vidas de milhares desses magníficos mamíferos que são cruelmente massacrados para satisfazer a um paladar pervertido que causa um efeito direto sobre as vidas desses animais. Além dessa consequência óbvia, há ainda o impacto sobre os seus companheiros, que testemunham de perto a morte dos que são atingidos por arpões munidos com explosivos, afogando-se em seu próprio sangue durante uma agonia que pode levar mais de 30 minutos para ser encerrada. Além disso, há ainda o efeito devastador sobre o ecossistema delicado dos oceanos, do qual depende também a nossa própria sobrevivência.

Muitas pessoas colocam suas vidas em risco por motivos menos nobres, seja para lutar pela pátria, para conquistar um país e tomar suas reservas de petróleo ou ainda por outros motivos que, por mais que estejam travestidos de sentimentos coletivos aparentemente nobres, não deixam de ser motivos egoístas na medida em que violam o interesse e o direito de outros. Diante dessa realidade histórica da nossa sociedade, onde indivíduos sempre se dispuseram ao sacrifício em nome da dominação e de sentimentos nada altruístas, confesso que tenho dificuldade em compreender por que algumas pessoas se espantam ao saberem que alguém é capaz de colocar sua vida em risco motivado por uma causa verdadeiramente nobre e que amplia a noção de coletividade para além da esfera dos animais humanos.

4- Algumas ONGs, como o Greenpeace, criticam essa estratégia de choque do Sea Shepherd. Eles defendem que os embates têm de ser pacíficos e que a vida dos integrantes do grupo nunca pode ser ameaçada. Como avalia isso? Qual é sua opinião?

O fato é que a Sea Shepherd conseguiu cortar pela metade a cota de 1.000 baleias que o Japão intentava matar no ano passado e, nesse exato momento, está aqui trabalhando para que eles voltem para casa de mãos vazias. A mesma ONG que critica essas estratégias que já se provaram eficientes promove nesse ano uma campanha para enviar origamis de baleia ao presidente dos EUA (que já é um país que não apoia a caça de baleias) e outras ações que têm pouco efeito sobre a vida das baleias que estão aqui onde nos dispusemos a vir. Tais campanhas têm um ar muito simpático (para não dizer fofo) e funcionam para trazer recursos para a ONG, mas diferentemente dos animais de papel que serão produzidos a cada doação recebida e assim serão multiplicados, têm pouca importância sobre a vida ou a morte das baleias de carne e osso que estão aqui e que estariam sendo mortas caso essa tripulação não tivesse escolhido estar aqui trabalhando e apoiando os métodos que vêm sendo usados pela Sea Shepherd nos últimos.

De qualquer forma, as ações realizadas pela Sea Shepherd não são violentas. Há uma diferença importante entre o uso da violência e o uso da força. A primeira tem como alvos seres sencientes (capazes de sentir dor e medo) que podem ser cetáceos, humanos ou qualquer outro animal. Esse é o tipo de ação levada a cabo pela frota japonesa quando lançam diretamente contra nós seus canhões de água pressurizada super gelada ou projéteis de metal. Há dois anos o Capitão Paul Watson foi baleado durante um confronto com a frota japonesa nesse mesmo navio e nessa mesma região. Já a segunda situação, o uso da força, tem como alvos objetos inanimados (navios, por exemplo) com a condição de não colocar em risco a vida da tripulação que ocupa o alvo. Todas as ferramentas usadas pela Sea Shepherd têm essa característica.

5- Como é nutricionista especializado em dietas vegetarianas e é vegano, gostaria de saber qual é a alimentação que tem no navio. É possível manter esse tipo de alimentação na embarcação?

Estamos aqui para defender vidas e o meio ambiente e nada mais coerente do que não consumirmos produtos de origem animal já que esses causam um impacto negativo sobre ambos. Por isso, toda a alimentação servida nos navios da Sea Shepherd é vegana, o que significa que não contêm carnes, laticínios, ovos ou qualquer outro produto que seja derivado da exploração de animais. Alguns tripulantes estão a bordo há meses e, assim como os veganos que estão em terra, são o testemunho vivo de que uma alimentação vegetariana atende à demanda física que a vida a bordo exige em uma campanha como essa.

6- O que mais considera importante ressaltar?

Os leitores podem encontrar informações sobre a campanha atualizadas semanalmente e relatadas a partir do meu ponto de vista no endereço http://guerragelida.blogspot.com

Sim, acabou!

18 de fevereiro de 2011

Hoje é um grande dia para as baleias!

Agora é definitivo. Hoje, 18 de fevereiro, o governo do Japão ordenou que os navios retornassem ao porto no Japão!

Depois de décadas de matança de dezenas de milhares desses magníficos animais, hoje é o dia em que a caça de baleias no Santuário Antártico terminou!


Notícia publicada hoje no R7: http://noticias.r7.com/internacional/noticias/japao-suspende-caca-as-baleias-na-antartida-20110218.html

Nota: O governo japonês deixa claro que o motivo do abandono da caça são as ações da Sea Shepherd (o que seria inegável).

Japão suspende caça às baleias na Antártida

País alega dificuldade de proteger seus navios de entidades ecológicas

Japão decidiu suspender sua campanha de caça às baleias na Antártida até o final da atual temporada, informou nesta sexta-feira o ministro da Agricultura e Pesca, Michihiko Kano. O anúncio foi feito via a TV estatal NHK.

- O ministro disse que a campanha será suspensa devido à dificuldade de se garantir a segurança das tripulações diante do assédio incessante da Sea Shepherd.

A Sea Sheperd é uma organização ecológica que, com navios próprios, ataca os pesqueiros japoneses, danificando suas estruturas e impedindo-os de caçar os mamíferos marinhos.

A Agência de Pesca já havia anunciado, na quarta-feira, a suspensão das atividades do Nisshin Maru, navio-fábrica da frota baleeira, por questões de segurança.

As capturas da frota japonesa, que tem uma cota anual de cerca de mil cetáceos, foram de apenas 507 baleias no ano passado, fato que a Agência de Pesca atribuiu às atividades de "obstrução" da Sea Shepherd.

Captura proibida

O Japão caça anualmente centenas de baleias na Antártica em nome da "pesquisa científica", já que a captura comercial do cetáceo está proibida desde 1986.

A baleia jubarte, principal alvo dos perqueiros, é uma espécie ameaça de extinção. estima-se que existam cerca de 35 mil desses animais, somando-se todos os oceanos.

 As autoridades japonesas afirmam que o consumo de carne de baleia é uma tradição ancestral no arquipélago.

Na última segunda-feira (14), o denominado "grupo de Buenos Aires", integrado por Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Equador, México, Panamá, Peru e Uruguai, pediu ao Japão que ponha fim à "caça científica" de baleias.


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Acabou?

Japoneses anunciam a possibilidade de voltarem para casa mais cedo

Japoneses anunciam a possibilidade de sair de vez da Antártida e atribuem o motivo à ação da Sea Shepherd, que fez com que conseguissem matar menos de 10% dos animais que pretendiam.
Como a Sea Shepherd está na traseira do navio-fábrica, o que impede a atividade de caça, a matança está suspensa e um membro do governo japonês anunciou que nesse momentoestão estudando a possibilidade de trazer a frota de volta 

Tudo pode ser mudado. Basta agir!

17 de fevereiro de 2010

Notícia do jornal O Estado de São Paulo:http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110217/not_imp680597,0.php

O Japão decidiu suspender temporariamente a caça de baleias na Antártida. O país alega que os tripulantes dos navios baleeiros estão em risco por causa da perseguição e dos ataques feitos pela ONG Sea Shepherd - os japoneses dizem que os ativistas têm agido de forma violenta.

Apesar de a caça ter sido proibida em 1986, os japoneses têm permissão para fazer o que chamam de caça científica. Neste ano, tinham o direito de caçar 945 baleias para realizar pesquisas, mas ficaram abaixo da cota. A carne das baleias mortas pode ser vendida no mercado interno. Segundo Tatsuya Nakaoku, da agência de pesca japonesa, a caça deve ser retomada quando as condições forem consideradas mais seguras. Porém, ele não informou por quanto tempo a suspensão deve ser mantida. O Sea Shepherd comemorou a decisão. "Deviam ter suspendido há 10, 15 anos. É moralmente e legalmente errado matar baleias", afirma Grant Pereira, ligado à ONG.

O brasileiro George Guimarães, nutricionista e defensor dos direitos dos animais, participou dessa campanha do Sea Shepherd. "É gratificante ver o resultado do trabalho", diz. Ao encontrar e conseguir bloquear o navio da frota, Nisshin Maru, a ONG impediu que os japoneses continuassem caçando. "Na campanha passada já tiveram prejuízo. Nesta, será ainda maior. Não vale a pena manter a tripulação na Antártida sem conseguir caçar."


Veja abaixo a notícia do Sky News da Austrália:


video
 
 

 

Japanese whalers have suspended their Antarctic hunt and are considering ending their mission early, a fisheries official says.
Activists from the US-based militant environmental group the Sea Shepherd Conservation Society have pursued and harassed the Japanese fleet for months to stop its harpoon ships from killing the sea mammals.
'(The factory ship) the Nisshin Maru, which has been chased by Sea Shepherd, has suspended operations since February 10 so as to ensure the safety (of the crew)', Japanese Fisheries Agency official Tatsuya Nakaoku said.
'We are now studying the situation, including the possibility of cutting the mission early,' he told Agence France-Presse in Tokyo, confirming media reports, but stressing that 'nothing has been decided at this point'.

Achados e Perdidos 26/01/2011

O helicóptero iniciou a busca pelo navio-fábrica, o Nishinmaru, logo cedo às 5 horas da manhã do dia 25 de janeiro. A área na qual estávamos posicionados estava tomada por imensas placas de gelo, o que é bom porque permite que o helicóptero voe com mais frequência já que a presença do gelo reduz as ondulações, o que é importante para a estabilidade do navio de modo que o helicóptero possa decolar e pousar. A parte não tão boa é que o Steve Irwin fica mais sujeito a se chocar contra um pedaço de gelo maior do que o seu casco pode suportar. Como já foi mencionado anteriormente, diferentemente do Bob Barker, o Steve Irwin não é um navio projetado para navegar no gelo já que o seu casco não tem a resistência necessária para se chocar contra blocos de solidez semelhante ao concreto e que podem ser maiores que uma casa. Esse é o caso dos blocos de gelo conhecidos como growlers. Já as placas de gelo podem ter centenas de metros de extensão. Nas condições de clima e distância da civilização nas quais estamos, uma abertura no casco pode resultar em uma fatalidade para toda a tripulação.

Foto por George Guimarães

Enquanto o Bob Barker continuava a manter o navio-tanque ocupado a alguns dias de navegação ao norte, o Steve Irwin passou o dia rasgando as imensas placas de gelo e esquivando-se dos growlers que minavam o oceano ao nosso redor. Foi o dia mais tenso de observação de growlers, especialmente porque tínhamos que reduzir em muito a velocidade para decolagem, o que reduz a capacidade de manobra. O helicóptero decolou repetidas vezes durante o dia usando a sua capacidade de se deslocar muitas vezes mais rápido que o Steve Irwin para varrer a região. Outra vantagem é que, diferente do navio, o helicóptero pode ver o alvo sem necessariamente ser visto, pois o contato visual é feito de longe e a sua velocidade dificulta que ele seja detectado no radar.

Depois de ter coberto centenas de milhas náuticas, foi no final da tarde que escutei pelo rádio enquanto descansava na Mess (área de descanso referida no texto do dia 16/01): “O helicóptero conseguiu confirmação visual do Nishinmaru”. As reações  variaram entre a euforia e a perplexidade. Logo seria o meu turno na Ponte e eu poderia acompanhar todos os detalhes, mas não dava para esperar, não é? Muitos correram para a Ponte de Comando para saber mais e possivelmente conseguir ver o navio, preparar-se para a ação... Mas o que descobrimos foi que o navio-fábrica estava a 35 milhas de distância, ainda muito distante para ser alcançado. O importante é que sabíamos onde ele estava. Agora seria uma questão de uso de estratégia para que pudéssemos alcançá-lo.
Foto por Barbara Veiga
Nishinmaru visto do helicóptero

O navio arpoeiro (Yushinmaru) que estava próximo ao navio-fábrica (Nishinmaru) não demorou a localizar o Steve Irwin e assim passou a nos monitorar, o que tornaria mais difícil a nossa aproximação. Em uma área tomada por icebergs e growlers, o radar do Steve Irwin não é capaz de detectar um navio a uma distância grande. O Nishinmaru, por outro lado, sabia exatamente a nossa posição uma vez que o Yushinmaru passou a nos seguir. Por isso dependíamos do helicóptero, que continuava a decolar de tempo em tempo para assegurar o conhecimento da posição do navio que é o coração da frota baleeira japonesa.

Foto por George Guimarães

Em torno das 8 da noite, em um ato desesperado objetivando dificultar  a   nossa   aproximação, que agora já tinha uma distância reduzida, o navio-fábrica passou a rumar em meio a um grande campo de gelo. As fotos aéreas produzidas a bordo do helicóptero mostravam que o Steve Irwin não poderia navegar pelo mesmo campo. Na verdade, nem eles poderiam, já que o Nishinmaru também não é adaptado para a navegação em meio ao gelo denso. Escolhemos dar a volta para cercá-los pelo outro lado do campo de gelo (uma área que se estendia por centenas de milhas). Com a equipe do helicóptero e do Deck extremamente desgastada (devido ao risco de um acidente durante a decolagem e o pouso e a velocidade com que deve ser efetuado o resgate, a equipe do Deck coloca o barco Delta de prontidão cada vez em que o helicóptero decola ou pousa) por estar trabalhando ininterruptamente desde as 5 da manhã, o monitoramento aéreo teve que ser cancelado por volta da meia-noite para ser retomado logo cedo no dia seguinte. Por mais que todos desejassem continuar, qualquer erro na operação pode causar uma fatalidade e as mentes já não mais conseguiam estar tão atentas quanto se fazia necessário.

Foto por Barbara Veiga

No dia seguinte, não pudemos mais localizar o navio-fábrica. O Gojira, que estava na Austrália para reparos no motor, fez uma enorme falta nesse momento da ação, pois ele teria sido capaz de contornar o campo de gelo com grande rapidez para encontrar o navio-fábrica do outro lado. Também fez falta o Bob Barker, que há poucos dias havia deixado de perseguir o navio-tanque mais ao norte para poder se juntar ao Steve Irwin em nossa busca ao sul, mas ele estava a alguns dias de distância. Foi efetuado o lançamento de um balão meteorológico com câmera e radar para auxiliar na busca, mas as informações colhidas não mostraram a presença do navio-fábrica na região. Com o navio arpoeiro em nossa traseira, sem conhecer as coordenadas antes detectadas pelo helicóptero, e navegando em meio ao grande campo de gelo, nossas chances de encontrá-lo estavam muito reduzidas.


Foto por George Guimarães
Barco Delta lançado à água
Nesse momento, deu-se início a uma operação de caça para afastar o navio arpoeiro. O barco Delta foi lançado à água com a munição necessária (ácido butírico, bombas de fumaça, cordas para apreender a hélice do navio arpoeiro), o helicóptero ao ar e o canhão d’água foi posicionado. Como não era o horário do meu turno na Ponte, uni-me à equipe do Deck para estar mais próximo da ação. Ao perceber nossa manobra de aproximação, o navio arpoeiro passou se dirigiu para o meio do gelo, o que impossibilitou a aproximação do barco Delta devido à sua limitação de navegação no gelo (trata-se de um barco feito de material flexível). O Steve Irwin seguiu em meio ao gelo, que era manchado com a tinta vermelha arrancada do casco do navio. O barulho do impacto é impressionante, assim como é impressionante ver uma massa flutuante pesando dezenas de toneladas rachando sobre os seus pés. A esperança era que, ao fugir em meio ao gelo, o navio arpoeiro se encurralaria em um trecho onde não conseguiria passar. A Sea Shepherd tem a vantagem do helicóptero que possibilita a visão aérea, já a frota baleeira não conta com essa vantagem. Por isso, a chance do navio arpoeiro se encurralar era maior do que a chance de o Steve Irwin ser encurralado. No entanto, eles seguiram gelo adentro. Como a capacidade de velocidade do navio arpoeiro é maior que a do Steve Irwin, abandonamos a perseguição depois de cerca de uma hora e voltamos a buscar pelo navio-fábrica, que é o melhor que podemos fazer nesse momento.

Foto por Barbara Veiga
Yushinmaru cortando o gelo

Juntamente com a notícia boa que o helicóptero trouxe ontem, a da descoberta do navio-fábrica, veio também a notícia ruim de que ele havia detectado a presença da carcaça de uma baleia no convés do navio assassino. A essa altura, já esperávamos que um dos três navios arpoeiros estivesse caçando (os outros dois estavam ocupados perseguindo a nossa frota), apesar de esse único arpoeiro estar caçando pouco, pois sabia da nossa presença na região e estava procurando manter a distância. Como sempre, se estão fugindo, não estão caçando. Portanto, já sabíamos da possibilidade de esse único navio estar atuando. Ainda assim, para nós que estamos aqui dedicando o nosso tempo e colocando nossas vidas em risco é ao mesmo tempo frustrante e revoltante saber que uma baleia foi morta enquanto estamos tão próximos. Estão matando algumas baleias ao invés de estarem matando centenas de baleias, o que é bom, mas para essas algumas que foram mortas, essa redução estatística não faz a menor diferença.

Os outros navios da frota da Sea Shepherd não deverão demorar a chegar à região onde estamos buscando e, quando isso acontecer, deveremos rumar de volta ao porto para reabastecimento, pois nossas reservas de combustível e suprimentos se aproximam do limite. Em toda a história da Sea Shepherd, esse foi o período mais longo de navegação do Steve Irwin – hoje contamos o 36º dia desde que deixamos o porto no dia 22 de dezembro e ainda temos alguns dias pela frente. Não temos mais frutas ou vegetais frescos (já estou começando a considerar pêssego em calda como uma “fruta fresca”, pois é o mais próximo a isso que temos em estoque), o banho está restrito a um banho de 3 minutos a cada 3 dias e a rotina começa a afetar o ânimo de todos. Sobre isso, eu escreverei no próximo texto. Nas últimas 24 horas tivemos momentos de alegria quando encontramos o Nishinmaru e de tristeza quando o perdemos. O que nos anima é saber que apesar de não estarmos conseguindo uma eficiência de 100% na redução da caça, ela foi reduzida em pelo menos 70% (eu também explicarei esses números no próximo texto).

Foto por George Guimarães
Yushinmaru em fuga para o meio do campo de gelo

Foto por George Guimarães
Barco Delta tenta aproximação

Foto por George Guimarães
Campo minado

Foto por George Guimarães
Campo minado 2

Foto por George Guimarães
Perseguição em meio ao campo de gelo

Foto por George Guimarães
Cortando pelo campo minado

Foto por George Guimarães
Cortando pelo campo minado

Foto por George Guimarães
Blocos de gelo partidos pelo navio


 Vídeo do Nishinmaru no momento em que foi encontrado (vídeo obtido no site da Sea Shepherd http://www.seashepherd.org/):



Fuga Tempestuosa 22/01/2011

Nos últimos dias, a rotina foi quebrada de maneira intencional e não-intencional (ou semi-intencional). Alguns membros da tripulação realizaram oficinas para compartilhar o seu conhecimento. Uma das engenheiras explicou sobre o funcionamento do seu setor (motores, geradores, etc), descrevendo os equipamentos e procedimentos em caso de emergências, como um incêndio, por exemplo, o que requereria a entrada da brigada de incêndio e por isso a necessidade de nos familiarizarmos com o ambiente e equipamentos desse setor. As explicações foram completadas por uma visita em pequenos grupos a esses ambientes que geralmente têm o acesso restrito ao restante da tripulação. Ficamos tão felizes com a “excursão” que outras oficinas foram propostas. Um tripulante experiente ensinou a todos sobre noções básicas de navegação (cartas, instrumentos, cálculos) e eu fiz uma oficina sobre nutrição vegetariana.

Foto por George Guimarães
Oficina Engenheira Beth

Foto por George Guimarães
Tripulação assistindo às oficinas

No dia 17 de janeiro o navio-tanque continuava a ser escoltado para garantir que ele não reabasteceria a frota baleeira. Os dois navios arpoeiros continuavam nos acompanhando bem ao norte da região do Tratado Antártico, deixando a certeza de que não estariam caçando. Mas o navio arpoeiro e o navio-fábrica continuavam incógnitos em sua localização e poderiam estar caçando mais ao sul.

A estratégia da frota japonesa é a de despistar a frota da Sea Shepherd do rastro do navio-tanque enquanto busca preservar o rastro que mantinha no Bob Barker e no Steve Irwin usando os navios arpoeiros. Assim, teriam o navio-tanque livre para reabastecer o navio-fábrica e poderiam mantê-los a uma distância segura na medida em que os navios arpoeiros informariam a posição dos navios da Sea Shepherd que continuariam a ser seguidos. Já a estratégia desse lado era a de perder um dos navios arpoeiros para poder ir procurar o navio-fábrica enquanto o outro navio continuaria escoltando o navio-tanque.


Foto por George Guimarães
Ondas pela lateral traseira do Steve Irwin

Foto por George Guimarães
Onda atinge lateral do Steve Irwin

Foto por George Guimarães
Onda atinge a proa do Steve Irwin

Foto por George Guimarães
Onda gigantesca se aproxima pela lateral


Foto por George Guimarães
Bob Barker em meio à tempestade

O Steve Irwin balançava de maneira severa, tombando mais de 30 graus para cada lado. A situação no Bob Barker, que estava ao alcance da nossa vista nos momentos em que a tempestade permitia, era ainda pior, pois a sua estrutura faz com que ele balance ainda mais quando atingido por ondas pela lateral. A bagunça no interior do navio era grande conforme os objetos, por mais bem amarrados que estejam o tempo todo, se deslocavam pelos vários ambientes do navio. Cadeiras, pratos, pessoas, tudo era jogado para lá e para cá. Na Ponte de Comando, que fica em uma posição mais elevada no navio e por isso balança ainda mais, balançávamos tão intensamente quanto os objetos que ocupavam (e desocupavam) as bancadas. As ondas chegaram a 12 metros de altura, frequentemente invadindo o convés do navio. A travessia pela tempestade durou até o dia seguinte e todos os navios mantiveram as suas posições.

Foto por George Guimarães
Bob Barker sofrendo o impacto das ondas

Foto por George Guimarães
Equipe do Deck trabalhando em meio à tempestade

No dia 18 de janeiro foi a vez do Steve Irwin tomar a frente no jogo. Um dos navios arpoeiros mostrou-se recuando no radar, provavelmente passando por alguma falha temporária e esse foi o momento para colocar em ação uma estratégia de evasão para que pudéssemos estar livres para buscar pelo navio-fábrica. O Bob Barker manteve a sua posição no rastro do navio-tanque enquanto o Steve Irwin acelerou para ultrapassá-lo, deixando-o para trás juntamente com o navio arpoeiro que apresentava alguma dificuldade. O outro navio arpoeiro escolheu ficar atrás do Bob Barker. 

Foto por George Guimarães
Sun Laurel sendo ultrapassado

A tempestade que se apresentava mais adiante foi escolhida para assegurar o sucesso da evasão. A diferença foi que a meteorologia indicava ventos com mais de 100 km/h para essa nova tempestade, que é a velocidade do vento de um furacão. Não há furacões nessa região do planeta porque os sistemas meteorológicos são desprovidos do calor necessário, mas a força do vento em tempestades como essa que se formava adiante é a mesma força do vento de um furacão.

Foto por George Guimarães
Onda lateral invade o convés do Steve Irwin

Foto por George Guimarães
Onda ergue a proa do Steve Irwin

Foto por George Guimarães
Ondas atingem a traseira do Steve Irwin

As ondas dessa vez chegavam a 15 metros de altura, as maiores encontradas durante toda a expedição. O navio se colocou de frente para as ondas, que a maneira mais confortável possível nessa situação onde a frequência das ondas é de 3 a 5 segundos. O fato de a onda ter 15 metros de altura não significa que elas cobrem o navio, pois ele se eleva junto com as ondas. O que isso significa é que a cada 5 segundos sofremos uma ascensão seguida de uma queda de até 10 metros. Por vezes, no entanto, dependendo da reação que a onda anterior provocou no navio, combinada com a direção da onda e outros fatores, ela pode sim invadir o navio. O convés era frequentemente inundado quando a proa, sem tempo para se elevar, se chocava diretamente contra uma onda. Em um único segundo, toneladas de água eram colocadas sobre o convés. Por vezes as janelas da Ponte de Comando eram atingidas pela água que subia com esse impacto.

Foto por George Guimarães
Onda invade o convés do Steve Irwin

Foto por George Guimarães
Ondas atingem a proa e espirra na Ponte de Comando

Foto por George Guimarães
Onda gigantesca pela traseira do Steve Irwin

A tempestade durou cerca de 12 horas, durante as quais seguimos adiante com a certeza de que esse risco nos garantiria a liberdade para continuarmos buscando pelo navio-fábrica. No dia seguinte, o Steve Irwin estava livre para voltar a rumar em direção ao sul para que assim possamos render de uma vez por todas a frota baleeira japonesa.

Foto por George Guimarães
Passada a tempestade

O Gojira, que varria o oceano mais ao sul, teve que retornar à Austrália para reparos no motor nos últimos dias, mas estará de volta em breve para retomar a busca. Tudo indica estarmos nos aproximando do navio-fábrica.

Durante esses dias mais ao norte, onde há um período curto de noite, tivemos a presença de uma linda Lua Cheia que iluminou a vastidão do oceano para ajudar nossos olhos, já desacostumados com a escuridão, a manterem-se atentos aos possíveis obstáculos. Mas tudo o que vimos por dias seguidos foi água. Hoje, já distantes da possibilidade da noite, voltamos a encontrar alguns growlers e icebergs pelo caminho.

Foto por George Guimarães
Lua Cheia iluminando o caminho

 
Para mais notícias, fotos e vídeos, acesse http://www.seashepherd.org

Monotonia em Meio à Ação 16/01/2011

Foto por George Guimarães
Os dias a bordo do Steve Irwin se alternam entre dias de ação intensa e dias que parecem um longo jogo de espera, exercício de paciência. Nos dias do segundo tipo, a rotina nesse ambiente caracteristicamente confinado ajuda a manter a ordem. A escala de trabalho é de 4 horas de trabalho seguida de 8 horas de folga, duas vezes ao dia. Não temos dias de folga, ou seja, trabalhamos sete dias por semana, o que é ótimo, pois não poderíamos mesmo fazer qualquer outra coisa além daquilo que já fazemos nos intervalos entre cada turno. Aliás, não temos dias da semana, já que tudo acontece da mesma maneira esteja o calendário marcando segunda-feira ou domingo. Ter um dia de folga para poder dormir 8 horas seguidas seria ótimo (ainda não me acostumei com essa rotina de ter que cochilar de tarde, só consegui fazer isso cinco vezes até hoje), mas ter outras 16 horas livres no dia seria entediante! O que podemos fazer é ler, escrever, participar das sessões de cinema após o almoço determinadas pelo Capitão ou das sessões de cinema noturnas determinadas pela tripulação. Dessa última eu não participo porque o meu turno noturno começa às 8 da noite. O contato com o mundo externo é por meio de um endereço de e-mail compartilhado, no qual todo o conteúdo enviado é monitorado (lido) antes de ser liberado pelo Oficial de Comunicações ou outro Oficial, o que pode levar dias para acontecer. Não temos acesso à internet de outra forma, o que não apenas nos priva de acessar notícias do que se passa fora do navio, mas também impossibilita a ocupação que a navegação (virtual) proporciona. Aproveito para esclarecer que esse blog está sendo atualizado por meio do envio de textos e imagens através desse e-mail compartilhado, por isso muitas vezes há demora na atualização do conteúdo.


Manter um ritmo saudável em um ambiente confinado onde temos apenas duas áreas por onde podemos circular livremente é um desafio importante. Esses lugares são a cabine e a Mess. A cabine é pequeníssima e faz muito frio, por isso não é confortável passar por muito tempo nela. A Mess, área de convivência onde fazemos nossas refeições, assistimos televisão ou sentamos para descansar ou passar o tempo é sempre movimentada, o que em alguns momentos é bom e em outros nem tanto, dependendo do que se está buscando. Outras áreas, como o convés (deck) e a Ponte de Comando têm circulação restrita fora do horário do turno de trabalho, mas eventualmente podem estar livres dependendo do clima e da atividade em andamento naquele momento. Outra parte do tempo é ocupada lavando roupas, tomando banho (o que não ocupa tanto tempo assim já que o tempo de duração máximo permitido é de 3 minutos e... jogando xadrez contra o computador.

Foto por George Guimarães

E por falar em rotina, tenho um pedido a fazer. Se alguém puder enviar um albatroz portando um MP3 player (eu li hoje que os albatrozes podem voar mais de 1.000 km por dia), avise que informarei as coordenadas para a entrega. Eu geralmente fico bem com o silêncio. A necessidade pelo MP3 player é para sana uma emergência. Preciso de algo para sobrepor com qualquer ruído (sério, qualquer ruído) as músicas francesas que uma das tripulantes insiste em tocar durante os turnos na Ponte de Comando... ninguém merece escutar várias horas de música francesa ao dia! Ah, sim, enviem também frutas frescas, muitas frutas frescas (albatrozes são comumente vistos voando em bandos), dessas que precisam ser consumidas até dois dias após serem colhidas, frutas tropicais, com sabor de clima quente: seriguela, umbu, cajá, pitanga, graviola... se bem que até mesmo um tomate fresco já faria uma grande diferença.

Foto por George Guimarães

Nosso mundo além do navio é uma rica imensidão vazia. Para qualquer lado que se olhe, vemos água até onde a vista alcança, exceto pelo eventual iceberg, albatroz ou grupo de baleias, que nos lembram o motivo que nos trouxe aqui. Apesar de todos os inconvenientes da vida a bordo, nesse exato momento o vazio que costuma ocupar a linha do horizonte é quebrado pela presença de um navio-tanque à frente e dois navios arpoeiros atrás, o que me dá a certeza de ter tomado a decisão certa quando escolhi estar aqui.

Foto por George Guimarães

Foto por George Guimarães

Foto por George Guimarães

Navios Sedentos 13/01/2011

Acordei na tarde do dia 11 de janeiro sentindo o navio vibrar fortemente, o que indicava que estávamos navegando em velocidade aumentada. Ou seja, havíamos identificado a posição de um possível alvo. O helicóptero já estava no ar e o Gojira estava a caminho, ambos com a tarefa de identificar visualmente o que havia sido detectado no radar do Gojira no início da tarde. O que foi encontrado não foi o navio-fábrica, mas o navio-tanque, responsável pelo fornecimento de combustível a toda a frota baleeira. Conforme foi descoberto mais tarde, o navio-tanque é o Sun Laurel, de bandeira panamenha. Com o Gojira já na sua traseira no início do meu turno da noite a bordo do Steve Irwin, seriam agora necessárias algumas horas para alcançá-lo, o que aconteceria somente na manhã seguinte.

Foto por George Guimarães

Foto por George Guimarães

O dia amanheceu ensolarado como já não amanhecia há uma semana. Às 4 da manhã, lá estava ele, o enorme navio-tanque de 104 metros de comprimento. Às 11 da manhã, o Capitão do Gojira fez contato via rádio identificando-se como membro de uma organização conservacionista atuando com base em uma resolução das Nações Unidas e solicitou esclarecimentos. Naturalmente, o Capitão do navio-tanque já sabia do que se tratava, mas a formalidade é necessária para que a comunicação seja devidamente documentada. A transmissão foi acompanhada da Ponte de Comando do Steve Irwin, que apenas observou. A primeira pergunta feita pelo Capitão do Gojira foi se o navio havia realizado alguma atividade de reabastecimento da frota japonesa, ao que o Capitão do navio-tanque Sun Laurel respondeu negativamente. É interessante notar que essa é a primeira vez que um dos navios da frota japonesa responde a um chamado feito via rádio. Eles geralmente ignoram a solicitação. Seguiu-se um esclarecimento sobre a norma do Tratado Antártico que proíbe a transferência de combustíveis ao sul dos 60 graus sul de latitude, destacando que o responsável por uma embarcação que venha a infringir essa norma pode ter a sua licença de Capitão cassada. O Capitão do navio-tanque reafirmou que não estava realizando esse tipo de atividade e que se dirigiria para fora dali, rumo ao Equador. É claro, eles estavam apenas passeando abaixo dos 60 graus sul de latitude com um navio-tanque e já estavam retornando à América Central, que fica a mais de cinco mil milhas náuticas de distância (cerca de 50 dias de navegação para um navio como esse).

Foto por George Guimarães

Foto por George Guimarães

Na manhã de hoje, recebemos a presença do Bob Barker, completando a reunião de toda a frota da Sea Shepherd em torno do navio-tanque. Mais uma vez, foi emocionante ver toda a frota reunida e uma movimentação especial começava a tomar forma. Em pouco tempo, o navio-tanque foi rodeado pelas três embarcações, que se colocaram em formação no seu entorno formando um raio com poucos metros de distância, deixando clara a nossa intenção de escoltá-lo para longe da área onde está a frota japonesa. O helicóptero também sobrevoava o navio para documentar tudo. Tendo deixado clara com esse posicionamento a intenção da frota, eles foram mais uma vez alertados sobre a violação representada pela sua presença abaixo dos 60 graus sul de latitude e responderam reiterando a sua intenção de retornar ao Equador, a qual não mais poderia ser adiada. Colocado na rota certa, ele continua seguindo na mesma direção. Com a reputação conquistada pela Sea Shepherd nos últimos anos, algumas vezes sequer é preciso agir. O mero posicionamento ostensivo já causa a sujeição do adversário.

Foto por Barbara Veiga

Foto por Barbara Veiga

Foto por George Guimarães

Foto por George Guimarães
Como são tantas as normas que a frota baleeira japonesa viola nessa região do planeta desprovida do monitoramento de governos ou organizações, seria ingênuo simplesmente acreditar no que eles dizem. Por isso, continuam sendo seguidos bem de perto, há menos de uma milha náutica de distância, enquanto são escoltados para fora do Santuário de Baleias da Antártida, onde jamais deveriam ter entrado! No período da noite, o navio-tanque já havia cruzado a linha dos 60 graus sul de latitude e o objetivo agora é levá-lo para uma distância ainda maior da frota baleeira, com o que ele mostra estar de acordo já que se mantém em rota e velocidade estáveis ainda em direção ao continente americano.

Foto por George Guimarães

Tendo encontrado o navio responsável pelo fornecimento de combustível para toda a frota baleeira e o mantendo sob monitoramento cerrado, três coisas poderão acontecer: 1) a frota japonesa terá que se aproximar da frota da Sea Shepherd e tentar (em vão) reabastecer, 2) ela enviará um novo navio-tanque, o qual levaria pelo menos duas semanas para chegar até a região e implicaria em um novo custo para somar aos seus prejuízos ou 3) impossibilitada de reabastecer e de caçar, ela retornará para casa deixando as baleias em paz.

O Gojira continua navegando mais ao sul em busca do navio-fábrica, que até esse momento ainda não foi encontrado. Os dois navios arpoeiros continuam na nossa traseira, o que é bom, pois significa que não estão caçando. Eles já podem ser vistos flutuando mais altos sobre a água, o que indica um estoque baixo de combustível. Desse modo, a presença em torno do navio-tanque coloca um prazo certo para que toda a frota baleeira volte para casa. A não ser, é claro, que eles decidam intervir para afastar o Steve Irwin e o Bob Barker, situação para a qual, para não dizer que a tripulação está ansiosa para que aconteça, direi apenas que estamos muito bem preparados caso eles tomem essa decisão equivocada.

Foto por Barbara Veiga