Navegando na Companhia de Baleias 05/01/2011


Foto por George Guimarães
Conforme previsto, a manhã do dia 02 de janeiro de 2011 começou com uma guerra de neve entre a tripulação do Deck e a tripulação da Ponte. Como em qualquer batalha, havia vantagens e desvantagens para ambos os lados: eles tinham o vento ao seu favor e nós tínhamos a gravidade. Eu não demorei muito para levar uma bolada de neve exatamente no coração, um golpe fatal! Logo fiz uso de minhas vidas remanescentes, dessa vez fazendo uso do estilingue para lançar as bolas mortíferas... que se desfaziam antes de atingirem o alvo. Como não havia limite de munição nem de vidas, render-se seria a única maneira de encerrar a brincadeira. Não me lembro qual das equipes se rendeu ao final, mas lembro que ambas saíram ganhando. A batalha travada às 8h30 da manhã sob uma temperatura de um grau Celsius negativo enquanto flutuávamos sobre o Oceano Antártico serviu para treinarmos a nossa pontaria para a ação dos próximos dias.


Durante os últimos quatro dias temos um arpoeiro japonês constantemente na traseira do Steve Irwin e outro na traseira do Bob Barker, que nos acompanha a uma distância grande, em outra latitude, continuando assim a varredura em busca do navio-fábrica. A parte boa de eles estarem nos seguindo para passar as coordenadas sobre a nossa posição ao navio-fábrica é que, enquanto eles estão fazendo isso, não estão caçando. A parte ruim é que enquanto estão fazendo isso, não conseguiremos encontrar o navio-fábrica.

Foto por George Guimarães

Foto por George Guimarães

Foto por George Guimarães

Nosso grande trunfo continua sendo o Gojira (que significa Godzila em japonês), nosso barco veloz que consegue facilmente deixar qualquer um dos navios da frota baleeira comendo água gelada. Por isso, ele consegue manter-se livre para buscar pelo navio-fábrica. Para nós que estamos a bordo dos navios maiores, a estratégia pode ser a de mantê-los seguindo-nos até o final da temporada (no mês de março, que é quando a água começa a congelar, impossibilitando a navegação) ou a de desabilitá-los para que possamos continuar a busca. Estamos fazendo um pouco de cada.

Foto por Barbara Veiga
Hoje, 05 de janeiro de 2011, durante o meu turno matinal na Ponte de Comando, mudamos a rota por duas vezes e mais uma vez durante o turno da noite. Em todos os momentos, fizemos uma mudança de rota de 180 graus, colocando-nos contra eles em rota direta de colisão. Em todas as vezes, eles desviaram, hora colocando-se de modo a retomar a sua posição em nossa traseira, hora colocando-se de forma a seguir-nos em uma linha paralela. Em uma dessas ocasiões, notamos que ele desviou levemente a sua rota em direção a um iceberg que estava a uma distância pequena de ambos, provavelmente buscando alguma distração da monotonia de ter que ficar na nossa cola quando na verdade desejavam estar caçando baleias. Talvez precisassem da distração por falta de humor para fazer guerras de neve para se distraírem, talvez por mera curiosidade, mas o fato é que aquele maravilhoso iceberg seria para a nossa contemplação, não para a deles. E aproveitando o atrevimento deles em terem chegado mais próximos de nós, foi traçado um plano tático. O Gojira já estava por perto, o helicóptero foi enviado ao ar, o barco Delta foi colocado na água, os rádios estavam testados e operando (quem já acompanhou outras campanhas pelo seriado Whale Wars sabe o custo gerado pelas falhas de comunicação durante as campanhas, por isso exalto quando ela funciona bem).

Foto por George Guimarães



Foto por Adam Lau

Foto por George Guimarães
Até aí, poderia parecer para eles que estávamos apenas em busca de alguma diversão, filmando o iceberg pelo ar e fotografando os barcos que se colocavam bem próximos a ele. Sabe-se lá o que eles estavam pensando, pois apesar de toda a movimentação, se mantiveram próximos. E de fato estávamos rondando esse iceberg único (bom, até aí, todos eles são únicos, mas esse realmente se destacava) de coloração azul e com formações cavernosas que em alguns pontos o atravessavam de um lado ao outro (atravessando os cerca de 200 metros de sua face menos espessa, a mais longa tinha cerca de um quilômetro). Demos algumas voltas no seu perímetro, em parte para documentá-lo, em parte para mantê-los afastados, só para importuná-los uma vez que haviam se mostrado interessados em chegar próximos a ele, mas principalmente porque preparávamos mais uma ofensiva no intuito de colocarmo-nos fora do alcance do seu radar para que pudéssemos estar livres. Para isso, o trabalho ficaria ao cargo do Gojira, que os atacaria e os distrairia enquanto corríamos.

Foto por George Guimarães

Foto por George Guimarães

Talvez inadvertidos por ter sido essa a primeira investida realizada pelo Gojira, ou por estarem confusos com a aproximação simultânea do Gojira, do Delta e do helicóptero, o barco veloz não teve dificuldade de realizar a sua tarefa. Atravessando por diversas vezes a frente do navio arpoeiro, passando a apenas 10 metros de sua proa ou de sua lateral, o Gojira lançou  garrafas contendo ácido butírico em seu deck. O helicóptero e o barco Delta acompanharam a ação por alguns momentos, mas logo retornando ao Steve Irwin para que pudéssemos iniciar o plano de evasão. Enquanto trazíamos os dois a bordo, e acompanhando toda a movimentação pelo radar, começamos a rumar na direção oposta do local onde era travada a batalha.

Foto por George Guimarães

Apesar de termos ganhado boa distância até que o navio arpoeiro parasse de rodar em círculos enquanto fugia do Gojira, não demoramos a ser alcançados por ele, que apesar de não ser tão veloz quanto o Gojira, é mais veloz que o Steve Irwin, que só pode despistá-lo se ele for mantido ocupado até que tenhamos saído do alcance do seu radar, o que representa muitas milhas náuticas, ou mais de uma hora de corrida sem sermos perseguidos. Com isso, mantemos a companhia dos japoneses ao alcance da nossa vista. Até a próxima oportunidade.

Foto por George Guimarães
O clima por aqui muda constantemente. Em uma única hora, ele muda de ensolarado, para nublado, para nevado. O temperamento da água muda igualmente, de calmo para agitado, de liso para ondulado. Só a temperatura é que se mantém mais estável, sempre um pouco abaixo de zero grau Celsius. Esses dias têm sido repletos de vistas de icebergs, albatrozes e... baleias! Em dias anteriores, havíamos avistado muitos jatos de baleias (resultantes da sua respiração), mas nos últimos dias eu pude finalmente avistá-las! Um dia uma, outro dia outra, hoje duas de uma só vez, uma delas até me mostrou a sua cauda! É reconfortante vê-las nadando, sabendo que não estão sendo mortas graças à nossa presença, mas é também preocupante testemunhar como elas poderiam ser alvo fácil dos arpões armados com explosivos que mancham de vermelho as águas puras e cristalinas dessa região remota do planeta.

Foto por Simon Ager

Foto por George Guimarães


Foto por George Guimarães


Foto por George Guimarães

Conforme mencionado no início desse texto, em qualquer batalha há vantagens e desvantagens para ambos os lados, do contrário um dos lados não se disporia a ela. No caso dessa Guerra Gélida, nossa principal vantagem é a paixão que carrega cada um dos voluntários que se dispõe a dedicar seu tempo e sua energia, e a abrir mão do seu conforto e da sua segurança, para estar aqui, na certeza de que essa é a coisa certa a ser feita. A cada ano, voltamos à Antártida mais fortes, e os baleeiros voltam mais fracos. Com uma campanha bem-sucedida nesse ano, eles voltarão para casa sem ter derramado uma gota de sangue e com isso terão o maior prejuízo econômico de toda a sua história. Com isso, essa poderá muito bem ser a última campanha da qual as baleias precisarão, pois enquanto estivermos aqui, nenhuma baleia será morta na Antártida!


O dia terminou com um lindo pôr-do-sol (às 23 horas), concedendo-nos mais um raro fenômeno com o qual a natureza nos presenteia aqui no extremo Sul do nosso planeta. Ele é conhecido como Green Flash, onde o último raio de luz projetado pelo sol é visto, por menos de um segundo, na cor verde.

Foto por George Guimarães


Vídeo feito pelos japoneses durante a aproximação do Gojira

video



8 comentários:

  1. Um raio verde invadiu a Antártida por bem mais que um segundo.

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  2. Fernando Purna Deva7 de janeiro de 2011 10:15

    Sinto muita gratidão pelo trabalho corajoso da galera toda! Vocês estão salvando muito mais que as baleias da Antártida, estão nutrindo esperanças de que a humanidade pode e deve triunfar sobre a ignorância e a mesquinharia!
    Gratidão.

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  3. Força.....Nós aqui estamos acompanhando e divulgando o trabalho de vcs.......

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  4. Quem ainda não é vegetariano por ética, perde a sensação de ler esse blog.

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  5. Obrigado por compartilhar dessa Saga conosco.Abençoados sejam!

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  6. Rezo a todos os deuses, principalmente aos ferozes deuses dessas águas gélidas, que protejam vc e todos os outros guerreiros nessa batalha. Vcs são fonte de inspiração para nós e para as futuras gerações... estamos acompanhando toda essa luta árdua e acredite, estamos imensamente agradecidos. No filme "O Sr. dos Anéis", o mago Gandalf diz uma frase que me veio a cabeça ao ler seus relatos: "Existem outras forças agindo nesse mundo além das forças do mal...E este é um pensamento encorajador".

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  7. Fiquei emocionada em poder partilhar desses acontecimentos!!Peço a Deus por vcs,pois são verdadeiros anjos das águas!!
    Tenho imenso orgulho de te conhecer George!!
    Grande abraço!

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  8. George - vc é o cara! O que te motiva nessa missão devera inspirar gerações.
    Parabéns. vou começar a acompanhar o seu blog.

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